Entrevista - Gabmar sobre Kátia: “Ninguém interpreta tão bem e com tanto sentimento”
Por Lenildo Ferreira
A Paraíba perdeu no fim da noite deste domingo um dos mais
importantes nomes da música, Gabmar Cavalcanti, de 72 anos. Em sua homenagem, reproduzimos,
abaixo,a longa entrevista por ele
concedida ao portal “Ritmo Melodia” em 2006, na qual o artista conta um pouco
da sua história, sua iniciação na música, as influências que recebeu, a perda da
visão, o sonho frustrado de reger uma orquestra e, claro, sobre Kátia Virgínia,
sua companheira durante mais de quatro décadas.
O casal campinense Gabmar Cavalcanti Albuquerque (Pianista,
Guitarrista, Arranjador) e Kátia Virginia Teles Cavalcanti (Cantora) são puros exemplos
do dito popular: Deus não dá asas a cobra. Ele um excelente músico pratico que
superou sua deficiência visual (Cego) aprendendo mais de um instrumento
sozinho. Ela uma cantora afinadíssima que se tivesse nos anos 60 e 70; mantido
uma carreira profissional no eixo Rio – São Paulo faria parte da galeria das
divas cantoras brasileira conhecida do publico em geral. Ambos iniciaram a
carreira artística no Conjunto de Baile Ogírio Cavalcanti (O grupo leva o nome
do seu fundador que é irmão de Gabmar e também Cego) que fez muitos shows na
região nordeste de 1960 até a década de 90. O que diferenciava o conjunto do
demais era o repertorio, o profissionalismo e formação que se assemelhava das
big band americanas. O conjunto Ogírio Cavalcanti merece registro em livro de
sua trajetória no nordeste.
Gabmar e Kátia se conheceram no grupo, se casaram e na vida
a dois o amor pela música virou o tempero do casamento. Ele se tornou dono de estúdio
na sua cidade natal Campina Grande – PB gravando no seu estúdio os principais
músicos locais, incluindo a sua esposa cantora que em 2002 lançou o primeiro CD
– Dever de Cantar. O CD leva o nome da música de trabalho de autoria do
compositor paulistano (Celso Viáfora). Eles mantêm ao longo dos anos fazendo
música comprometida com a arte que ultrapassam o tempo e gerações. É uma pena
que a melhor música não encontra espaço nos meios de comunicação de massa na
atualidade. Um casal virtuoso que merecem receber os louros do reconhecimento
dentro e fora de sua cidade pelo talento inquestionável e profissionalismo inabalável
pelo canto da sereia do sucesso descartável. Salve, salve artistas que
valorizam a arte acima das vaidades pessoais. Tarda o reconhecimento, mas
quando chega; eles podem olhar para trás não se envergonharem do que criaram.
Segue abaixo entrevista exclusiva de Gabmar Cavalcanti e Kátia Virginia em
02\06\2006 para revista musical on-line www.ritmomelodia.mus.br:
1) Ritmo Melodia –
Fale em que cidade você nasceu, em que dia e ano.
Gabmar Cavalcanti – Nasci na cidade de Campina Grande – PB,
no dia 17/07/1943.
2) RM – Fale do seu primeiro contato com a música. GC – Em
minha casa havia um velho piano, no qual a minha irmã Alba Cavalcanti costumava
executar pequenas melodias. Eu, então com três anos de idade, deitava-me no
sofá e escutando bastante atento as ditas músicas. Quando ela saía do instrumento,
eu tentava reproduzir, em parte, aquilo que havia acabado de ouvir. Assim,
desta maneira, fui tomando conhecimento dos sons musicais, do nome das notas,
dos acordes, etc.
3-) RM – Diga duas influências musicais.
GC – Cronologicamente, diria que Luiz Gonzaga foi a minha
primeira e grande influência. Depois, a música erudita, exerce sobre mim uma
enorme atração. Diria melhor: A música bem elaborada me influencia sobre maneira.
Na primeira metade dos anos 50, fui virtualmente enfeitiçado pela suíte
sinfônica Sheherazade, doKorsakov, através de uma velha gravação do grande
maestro Stokowski. Foi, para mim, a porta de entrada para a apreciação deste
gênero musical. Por volta de 1958, com o aparecimento do primeiro disco do João
Gilberto, o meu aprendizado harmônico no que diz respeito à música popular,
tomou um grande impulso.
4) RM – Fale de sua formação musical (teórica e prática) . GC
– A minha formação musical pode ser definida como essencialmente prática. Tive,
apenas, algumas aulas de teoria musical na minha infância. Hoje, quase tudo que
sei sobre a arte, me veio devido a minha observação e análise dos fatos
musicais que escuto.
5) RM – Fale de sua iniciação profissional na carreira
musical.
GC – Em 1960, ao voltar de João Pessoa – PB, onde havia
concluído o primário no: Instituto Adalgisa Cunha, e com a saída do meu irmão
Ogírio Cavalcant do casting de artistas contratados da rádio Borborema(Campina Grande-PB).
Eu, com 17 anos, assumi o posto de pianista daquela emissora, iniciando-se
assim, a minha vida profissional.
6) RM – Quantos discos gravados? Fale do perfil de cada um
deles e quais músicas se sobressaíram.
GC – Apesar de estar tanto tempo envolvido com a música,
confesso que ainda não me preocupei em lançar nenhum disco instrumental, o que
não significa dizer que nunca o farei. É apenas uma questão de oportunidade. Entretanto,
em 2002, Kátia Virgínia, minha esposa, lançou o seu primeiro CD – Dever de
Cantar. Ele cantado e arranjado e gravado por mim e por nosso filho Álisson
Teles, no Solo Stúdio, que é de nossa propriedade. O referido CD teve bastante
aceitação, não só de público como de crítica. A música-título (Dever de
Cantar), de autoria do Celso Viáfora, e (Tanto Brasil), do Chico Souza,
compositor campinense radicado em São Paulo; foram das músicas mais tocadas.
7) RM – Fale como adquiriu sua deficiência visual, e em que
isto atrapalhou na sua iniciação musical. Na sua família existem outras pessoas
com a mesma deficiência?
GC – Perdi a visão aos 3 anos de idade, vitimado pelo
glaucoma. Acho que talvez o principal empecilho que a minha deficiência me
impôs, foi o de não ter podido estudar música como deveria. Sempre sonhei em
poder reger uma grande Orquestra, em poder interpretar as grandes obras dos
nossos grandes mestres. Infelizmente não pude! Esta é a minha maior frustração!
Na minha família, além de mim, apenas o Ogírio, meu irmão, é deficiente visual.
8) RM – Fale do panorama musical em Campina Grande nas
décadas de 60 e 70, e que tipo de música animava os bailes do povo e da classe
alta.
GC – Campina Grande – PB, nos anos 60, vivia uma grande
efervescência no que diz respeito a música. Com a inauguração do Teatro
Municipal Severino Cabral em 1964, começou a acontecer eventos musicais como festivais,
apresentações, concursos para cantores, etc. Houve, também, a proliferação de
inúmeros grupos musicais como: Os Rebeldes, Os Apaches, Sebomatos (Que
participava Bráulio Tavares), Os Falcões, Os Capetas, Os Notáveis, Anjos do
Inferno, Os Adams, Os Pássaros, Os Peraltas, Os Barra – Limpa, Os Panteras, As
Brasas (Conjunto feminino, do qual fez arte a nossa Elba Ramalho), e muitos
outros. E que eram voltados para a recém-surgida Jovem Guarda. Além destes
grupos, surgiram os grupos de baile como: Ogírio Cavalcanti (Que já existia bem
antes disso), Vickings, etc. Quanto às músicas que embalavam as festas de
então, Anísio Silva, Silvinho, Orlando Dias, Renato e seus Blue Caps, dentre outros,
falavam aos corações mais simplórios, enquanto que a Bossa-nova e os blues
americanos, arrancavam (gritinhos prazerosos) das classes mais abastadas!
9) RM – Fale sobre o conjunto de baile Ogírio Cavalcanti,
quando iniciou suas atividades e qual os músicos que fizeram parte da sua
primeira formação.
GC – O início do (Conjunto Musical Ogírio Cavalcanti), como
era conhecido na época, se deu mais ou menos por volta de 1960, tendo em sua primeira
formação os seguintes músicos: Ogírio (Piano e Acordeom), Zuca (Bateria),
Valdemar e Escurinho (Percussão), Erasmo Tenório (Contrabaixo acústico), Neno
(Manola), Ronaldo Soares e Silvinha de Alencar (Cantores).
10) RM – No conjunto Ogírio Cavalcanti, o que era igual e o
que era diferente dos outros conjuntos musicais da Paraíba?
GC – Bem, de igual mesmo aos outros conjuntos da época,
talvez, só mesmo, os instrumentos utilizados. Pois, a sua maneira de tocar, os
seus arranjos, e, principalmente, o seu REPERTÓRIO, que era de excelente qualidade,
foram os fatores preponderantes que, sem dúvida alguma, o diferenciava dos
demais.
11) RM – E quando terminou suas atividades?
GC – Por volta de meados da década de 90, após a
aposentadoria do Ogírio. E com o aparecimento de miríades de bandas, surgidas
de todas as esquinas, (Cloníferos). E por vezes, até do nada, de todos os
calibres, conluios e quilates, onde a boa música e o bom som nem sempre são a primeira
opção!
12) RM – Quem é Ogírio Cavalcanti?
GC – Ogírio Cavalcanti é meu irmão. Na sua infância,
Igualmente a mim, foi acometido de glaucoma, perdendo quase que totalmente a
visão. Nascido a 11/10/1934, começou a se envolver com música ao mesmo tempo em
que eu. É pianista, acordeonista e contrabaixista, tendo exercido esta última
atividade por muitos anos no grupo musical que levou o seu nome, por décadas a
fio e por todo o nordeste do Brasil.
13) RM – Você mantinha contato com músicos de outros
conjuntos da Paraíba, quem eram estes e quais eram os conjuntos?
GC – Nós tínhamos relações de amizade com vários conjuntos e
músicos da Paraíba. O grande problema é a minha memória! Mas, puxando daqui e
dali… Lembro-me… Dos Quatro Loucos, de João Pessoa, Aldemir Sorrentino, também de
Jampa, Os Selvagens e Os Jovens, da cidade de Patos – PB, Tuaregues, deJoão
Pessoa, Bárbaros, de Alagoa Grande – PB, e… só Deus sabe quantas mais! Quanto
aos músicos, conhecíamos e mantínhamos contato com quase todos, destas, e de
outras bandas.
14) RM – Você conheceu Os Selenitas, de João Pessoa?
GC – Sim, conheci, muito embora, não lembre de sua formação.
15) RM – Você conheceu Jarbas Mariz, o fundador de Os
Selenitas?
GC – Infelizmente não lembro de tê-lo conhecido.
16) RM – Em que época o forró era discriminado, e quando
voltou a ser aceito novamente?
GC – Com o surgimento da bossa nova e da jovem guarda, o
forró foi ficando um pouco esquecido pelo grande público. As músicas do Luiz Gonzaga,
que era o seu principal representante, já não tocavam nas emissoras de rádio
como antes. Tanto é assim, que o próprio Lua chegou a gravar um baião de
autoria do Onildo Almeida que era uma verdadeira despedida: “Minha sanfona vou
dar de presente ao museu, é a hora do adeus de Luís, rei do baião”. Somente a
partir da metade dos anos 70, é que, com o impulso dado pelos baianos: Gil,
Caetano e outros, bem como com a persistência e garra de uma Marinês, de um
Jackson do Pandeiro, de um Abdias, de um Elino Julião e tantos outros, o forró
renasceu e se mantêm até hoje, apesar de, digamos assim, certos desvios de conduta…!
17) RM – Qual a sua relação pessoal com os músicos: Jackson
do Pandeiro, Marinês, Rozil Cavalcanti, Biliu de Campina, Pepysho Neto, Tan,
Jorge Ribas, João Gonçalves, Bráulio Tavares, Elba Ramalho e Zé Ramalho?
GC – Eu não cheguei a conhecer pessoalmente o Jackson do
Pandeiro. A Marinês é a nossa querida e fraternal amiga. Tanto ela como o seu
filho, o grande músico Marcos Farias. Rosil Cavalcanti trabalhou comigo na rádio
Borborema. Tive o prazer de conhecê-lo e de merecer a sua amizade por muitos
anos até a sua morte, em 1968. Biliu de Campina é o meu fraterno e irreverente
amigo. Conheço-o há mais de quarenta anos. Pepysho Neto e Tan são amigos mais
recentes, mas, nem por isso deixam de ser grandes amigos meus! Ambos cantores.
O Pepysho gravou comigo o seu primeiro CD, e o Tan já gravou vários CDs que
foram arranjados e gravados por mim. Jorge Ribas é um querido amigo.
Arranjador. É um virtuose do violão e um estudioso da arte. Conheço o João
Gonçalves desde longa data. É um grande compositor que nós temos. O Bráulio Tavares
é um amigo das antigas! Desde os tempos dos Sebomatos, banda que se apresentava
e tocava tal qual os Beatles aqui em Campina Grande, e da qual ele fazia parte
nos anos 60. É um amigão! Tenho o prazer de conhecer a Elba Ramalho desde os
tempos do Colégio Estadual da Prata, onde ela estudava e participava do
conjunto musical feminino As Brasas, isto nos anos 60. Finalmente Zé Ramalho,
ainda eu não tive a satisfação de conhecê-lo pessoalmente.
18) RM – Cite os músicos com quem você mais tem proximidade.
GC – Ah! Seria uma lista enorme! Por isso, não gostaria de
citá-los para não cometer injustiças. Esta minha memória…!
19) RM – Fale de sua experiência como homem de estúdio.
GC – É uma experiência realmente gratificante. Aprimora-se
muito o sentido da criação, da percepção, melhorando em muito a nossa prática musical.
20) RM – Fale da sua vivência com as festas juninas no seu
início musical, e como vê-las hoje, como produtor cultural turístico.
GC – Sem nenhum saudosismo, ou, com todo saudosismo, não
importa, festa de São João na minha meninice e adolescência tinha um cheiro de
pureza no ar! Ao invés de ilhas de forró (Se referindo aos pequenos locais, tipo
palhoças do interior ou coretos cobertos, que as pessoas dançam no Parque do
Povo no Maior São João do Mundo em Campina Grande), havia um grande continente
de alegria! Não entendo nada de turismo, mas, tenho muito medo do mercantilismo
reinante hoje em tudo. Do: Vender para publícitar, que eu diria melhor: Vender
para manietar. Acho que as festas de São João é como as de carnaval etc. Na sua
essência, esmaecem na razão inversa das suas transformações em espetáculo, que
enriquecem empresários e, quase sempre, empobrecem a cultura.
21) RM – Nos apresente Kátia Virgínia, sua esposa cantora.
GC – Kátia Virgínia Teles Cavalcanti, é, sem dúvida alguma,
a mais bela voz desta região. Como eu sou suspeito para falar, diria apenas
que, na minha já longa vida de músico, não encontrei ninguém que interpretasse tão
bem e com tanto sentimento, os mais diferentes tipos de canções que lhes foram
confiadas. Prova inequívoca disto, são as várias gravações que já fizemos
juntos. Bem como o sucesso obtido com o lançamento do seu primeiro CD com
músicas inéditas (Dever de Cantar), ocorridos em 2002. Ela, ainda adolescente,
teve diversas participações na rádio e televisão local e regional, tendo ido ao Rio de Janeiro, onde participou
do programa Clube do Bolinha, do o apresentador Jair de Talmaturgo. E também,
do Programa do Chacrinha, obtendo muito boa aceitação. A partir da segunda
metade de 1969, ingressou no grupo musical Ogírio Cavalcanti, lá permanecendo
por muitos anos, sempre com enorme sucesso. Casamo-nos em 1975. Estamos, então,
até hoje, trilhando a mesma estrada, musical e conjugal. Álisson, Sheyla e
Shirley, são nossos três filhos.
22) RM – Fale sobre os projetos para 2006 e futuros.
GC – Os planos para o futuro são os que nortearam a nossa
vida até hoje. Isto é: Trabalho, trabalho e trabalho! Incluem-se neste
verdadeiro mutirão a dois, a gravação de um próximo CD, e shows por este mundão
de meu Deus.