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domingo, 15 de maio de 2016

Obituário Folha de S. Paulo - Mortes: Músico de ouvido aguçado, nunca teve aulas

GABMAR CAVALCANTI ALBUQUERQUE (1943-2016)
Mortes: Músico de ouvido
aguçado, nunca teve aulas
FERNANDA PEREIRA NEVES
DE SÃO PAULO
15/05/2016 00h00


Gabmar Cavalcanti Albuquerque tinha 3 ou 4 anos quando começou a dedilhar o piano de sua casa. As tentativas aconteciam depois das aulas da irmã. Ele ficava ao lado, atento, e, ao final, corria para tentar reproduzir as músicas tocadas por ela.

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Nascido em Campina Grande (PB), Gabmar cresceu
ouvindo música. Começou com a mãe, que tocava
bandolim. Mas foi o pai que lhe deu a primeira
sanfona. Pequena, compatível com o tamanho de um menino de quatro anos. Sozinho, tentava, errava, insistia, até conseguir as notas certas.


Cego desde os três anos, após um glaucoma, ele nunca teve aulas de música. Mas tinha a audição aguçada e era insistente. Foi assim com a sanfona, com o piano, com o violão, com a guitarra, com a flauta. Até a bateria arriscou.

A família estava sempre incentivando. Um dos irmãos o levou a um concurso de calouros no Rio, aos dez anos. Também com ele, começou a tocar profissionalmente. Por mais de 30 anos, os dois estiveram na mesma banda, viajando pelo Nordeste do país.

"Todo final de semana eles tocavam em três, quatro cidades. Não chegaram a tocar no Sudeste, mas estavam nos Estados ao redor da Paraíba", conta o filho, Alison.

Gabmar deixou a banda nos anos 90, mas não a música. Passou a se apresentar com a mulher, Kátia, com quem tocou até o fim.

O rádio era seu companheiro nas horas vagas. Não apenas pela música. Acompanhava notícias e mantinha conversas pelo rádio amador.

Morreu no dia 1o, aos 72, após lutar contra um câncer. Deixa mulher, três filhos, quatro netos e quatro irmãos. 

coluna.obituario@grupofolha.com.br 

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/05/1771448-mortes-musico-de-ouvido-agucado-nunca-teve-aulas.shtml

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Entrevista - Gabmar sobre Kátia: “Ninguém interpreta tão bem e com tanto sentimento”

Por Lenildo Ferreira

 

A Paraíba perdeu no fim da noite deste domingo um dos mais importantes nomes da música, Gabmar Cavalcanti, de 72 anos. Em sua homenagem, reproduzimos, abaixo,a longa  entrevista por ele concedida ao portal “Ritmo Melodia” em 2006, na qual o artista conta um pouco da sua história, sua iniciação na música, as influências que recebeu, a perda da visão, o sonho frustrado de reger uma orquestra e, claro, sobre Kátia Virgínia, sua companheira durante mais de quatro décadas.

O casal campinense Gabmar Cavalcanti Albuquerque (Pianista, Guitarrista, Arranjador) e Kátia Virginia Teles Cavalcanti (Cantora) são puros exemplos do dito popular: Deus não dá asas a cobra. Ele um excelente músico pratico que superou sua deficiência visual (Cego) aprendendo mais de um instrumento sozinho. Ela uma cantora afinadíssima que se tivesse nos anos 60 e 70; mantido uma carreira profissional no eixo Rio – São Paulo faria parte da galeria das divas cantoras brasileira conhecida do publico em geral. Ambos iniciaram a carreira artística no Conjunto de Baile Ogírio Cavalcanti (O grupo leva o nome do seu fundador que é irmão de Gabmar e também Cego) que fez muitos shows na região nordeste de 1960 até a década de 90. O que diferenciava o conjunto do demais era o repertorio, o profissionalismo e formação que se assemelhava das big band americanas. O conjunto Ogírio Cavalcanti merece registro em livro de sua trajetória no nordeste.

Gabmar e Kátia se conheceram no grupo, se casaram e na vida a dois o amor pela música virou o tempero do casamento. Ele se tornou dono de estúdio na sua cidade natal Campina Grande – PB gravando no seu estúdio os principais músicos locais, incluindo a sua esposa cantora que em 2002 lançou o primeiro CD – Dever de Cantar. O CD leva o nome da música de trabalho de autoria do compositor paulistano (Celso Viáfora). Eles mantêm ao longo dos anos fazendo música comprometida com a arte que ultrapassam o tempo e gerações. É uma pena que a melhor música não encontra espaço nos meios de comunicação de massa na atualidade. Um casal virtuoso que merecem receber os louros do reconhecimento dentro e fora de sua cidade pelo talento inquestionável e profissionalismo inabalável pelo canto da sereia do sucesso descartável. Salve, salve artistas que valorizam a arte acima das vaidades pessoais. Tarda o reconhecimento, mas quando chega; eles podem olhar para trás não se envergonharem do que criaram. Segue abaixo entrevista exclusiva de Gabmar Cavalcanti e Kátia Virginia em 02\06\2006 para revista musical on-line www.ritmomelodia.mus.br:

 1) Ritmo Melodia – Fale em que cidade você nasceu, em que dia e ano.

Gabmar Cavalcanti – Nasci na cidade de Campina Grande – PB, no dia 17/07/1943.

2) RM – Fale do seu primeiro contato com a música. GC – Em minha casa havia um velho piano, no qual a minha irmã Alba Cavalcanti costumava executar pequenas melodias. Eu, então com três anos de idade, deitava-me no sofá e escutando bastante atento as ditas músicas. Quando ela saía do instrumento, eu tentava reproduzir, em parte, aquilo que havia acabado de ouvir. Assim, desta maneira, fui tomando conhecimento dos sons musicais, do nome das notas, dos acordes, etc.

3-) RM – Diga duas influências musicais.

GC – Cronologicamente, diria que Luiz Gonzaga foi a minha primeira e grande influência. Depois, a música erudita, exerce sobre mim uma enorme atração. Diria melhor: A música bem elaborada me influencia sobre maneira. Na primeira metade dos anos 50, fui virtualmente enfeitiçado pela suíte sinfônica Sheherazade, doKorsakov, através de uma velha gravação do grande maestro Stokowski. Foi, para mim, a porta de entrada para a apreciação deste gênero musical. Por volta de 1958, com o aparecimento do primeiro disco do João Gilberto, o meu aprendizado harmônico no que diz respeito à música popular, tomou um grande impulso.

4) RM – Fale de sua formação musical (teórica e prática) . GC – A minha formação musical pode ser definida como essencialmente prática. Tive, apenas, algumas aulas de teoria musical na minha infância. Hoje, quase tudo que sei sobre a arte, me veio devido a minha observação e análise dos fatos musicais que escuto.

5) RM – Fale de sua iniciação profissional na carreira musical.

GC – Em 1960, ao voltar de João Pessoa – PB, onde havia concluído o primário no: Instituto Adalgisa Cunha, e com a saída do meu irmão Ogírio Cavalcant do casting de artistas contratados da rádio Borborema(Campina Grande-PB). Eu, com 17 anos, assumi o posto de pianista daquela emissora, iniciando-se assim, a minha vida profissional.

6) RM – Quantos discos gravados? Fale do perfil de cada um deles e quais músicas se sobressaíram.

GC – Apesar de estar tanto tempo envolvido com a música, confesso que ainda não me preocupei em lançar nenhum disco instrumental, o que não significa dizer que nunca o farei. É apenas uma questão de oportunidade. Entretanto, em 2002, Kátia Virgínia, minha esposa, lançou o seu primeiro CD – Dever de Cantar. Ele cantado e arranjado e gravado por mim e por nosso filho Álisson Teles, no Solo Stúdio, que é de nossa propriedade. O referido CD teve bastante aceitação, não só de público como de crítica. A música-título (Dever de Cantar), de autoria do Celso Viáfora, e (Tanto Brasil), do Chico Souza, compositor campinense radicado em São Paulo; foram das músicas mais tocadas.

7) RM – Fale como adquiriu sua deficiência visual, e em que isto atrapalhou na sua iniciação musical. Na sua família existem outras pessoas com a mesma deficiência?

GC – Perdi a visão aos 3 anos de idade, vitimado pelo glaucoma. Acho que talvez o principal empecilho que a minha deficiência me impôs, foi o de não ter podido estudar música como deveria. Sempre sonhei em poder reger uma grande Orquestra, em poder interpretar as grandes obras dos nossos grandes mestres. Infelizmente não pude! Esta é a minha maior frustração! Na minha família, além de mim, apenas o Ogírio, meu irmão, é deficiente visual.

8) RM – Fale do panorama musical em Campina Grande nas décadas de 60 e 70, e que tipo de música animava os bailes do povo e da classe alta.

GC – Campina Grande – PB, nos anos 60, vivia uma grande efervescência no que diz respeito a música. Com a inauguração do Teatro Municipal Severino Cabral em 1964, começou a acontecer eventos musicais como festivais, apresentações, concursos para cantores, etc. Houve, também, a proliferação de inúmeros grupos musicais como: Os Rebeldes, Os Apaches, Sebomatos (Que participava Bráulio Tavares), Os Falcões, Os Capetas, Os Notáveis, Anjos do Inferno, Os Adams, Os Pássaros, Os Peraltas, Os Barra – Limpa, Os Panteras, As Brasas (Conjunto feminino, do qual fez arte a nossa Elba Ramalho), e muitos outros. E que eram voltados para a recém-surgida Jovem Guarda. Além destes grupos, surgiram os grupos de baile como: Ogírio Cavalcanti (Que já existia bem antes disso), Vickings, etc. Quanto às músicas que embalavam as festas de então, Anísio Silva, Silvinho, Orlando Dias, Renato e seus Blue Caps, dentre outros, falavam aos corações mais simplórios, enquanto que a Bossa-nova e os blues americanos, arrancavam (gritinhos prazerosos) das classes mais abastadas!

9) RM – Fale sobre o conjunto de baile Ogírio Cavalcanti, quando iniciou suas atividades e qual os músicos que fizeram parte da sua primeira formação.

GC – O início do (Conjunto Musical Ogírio Cavalcanti), como era conhecido na época, se deu mais ou menos por volta de 1960, tendo em sua primeira formação os seguintes músicos: Ogírio (Piano e Acordeom), Zuca (Bateria), Valdemar e Escurinho (Percussão), Erasmo Tenório (Contrabaixo acústico), Neno (Manola), Ronaldo Soares e Silvinha de Alencar (Cantores).

10) RM – No conjunto Ogírio Cavalcanti, o que era igual e o que era diferente dos outros conjuntos musicais da Paraíba?

GC – Bem, de igual mesmo aos outros conjuntos da época, talvez, só mesmo, os instrumentos utilizados. Pois, a sua maneira de tocar, os seus arranjos, e, principalmente, o seu REPERTÓRIO, que era de excelente qualidade, foram os fatores preponderantes que, sem dúvida alguma, o diferenciava dos demais.

11) RM – E quando terminou suas atividades?

GC – Por volta de meados da década de 90, após a aposentadoria do Ogírio. E com o aparecimento de miríades de bandas, surgidas de todas as esquinas, (Cloníferos). E por vezes, até do nada, de todos os calibres, conluios e quilates, onde a boa música e o bom som nem sempre são a primeira opção!

12) RM – Quem é Ogírio Cavalcanti?

GC – Ogírio Cavalcanti é meu irmão. Na sua infância, Igualmente a mim, foi acometido de glaucoma, perdendo quase que totalmente a visão. Nascido a 11/10/1934, começou a se envolver com música ao mesmo tempo em que eu. É pianista, acordeonista e contrabaixista, tendo exercido esta última atividade por muitos anos no grupo musical que levou o seu nome, por décadas a fio e por todo o nordeste do Brasil.

13) RM – Você mantinha contato com músicos de outros conjuntos da Paraíba, quem eram estes e quais eram os conjuntos?

GC – Nós tínhamos relações de amizade com vários conjuntos e músicos da Paraíba. O grande problema é a minha memória! Mas, puxando daqui e dali… Lembro-me… Dos Quatro Loucos, de João Pessoa, Aldemir Sorrentino, também de Jampa, Os Selvagens e Os Jovens, da cidade de Patos – PB, Tuaregues, deJoão Pessoa, Bárbaros, de Alagoa Grande – PB, e… só Deus sabe quantas mais! Quanto aos músicos, conhecíamos e mantínhamos contato com quase todos, destas, e de outras bandas.

14) RM – Você conheceu Os Selenitas, de João Pessoa?

GC – Sim, conheci, muito embora, não lembre de sua formação.

15) RM – Você conheceu Jarbas Mariz, o fundador de Os Selenitas?

GC – Infelizmente não lembro de tê-lo conhecido.

16) RM – Em que época o forró era discriminado, e quando voltou a ser aceito novamente?

GC – Com o surgimento da bossa nova e da jovem guarda, o forró foi ficando um pouco esquecido pelo grande público. As músicas do Luiz Gonzaga, que era o seu principal representante, já não tocavam nas emissoras de rádio como antes. Tanto é assim, que o próprio Lua chegou a gravar um baião de autoria do Onildo Almeida que era uma verdadeira despedida: “Minha sanfona vou dar de presente ao museu, é a hora do adeus de Luís, rei do baião”. Somente a partir da metade dos anos 70, é que, com o impulso dado pelos baianos: Gil, Caetano e outros, bem como com a persistência e garra de uma Marinês, de um Jackson do Pandeiro, de um Abdias, de um Elino Julião e tantos outros, o forró renasceu e se mantêm até hoje, apesar de, digamos assim, certos desvios de conduta…!

17) RM – Qual a sua relação pessoal com os músicos: Jackson do Pandeiro, Marinês, Rozil Cavalcanti, Biliu de Campina, Pepysho Neto, Tan, Jorge Ribas, João Gonçalves, Bráulio Tavares, Elba Ramalho e Zé Ramalho?

GC – Eu não cheguei a conhecer pessoalmente o Jackson do Pandeiro. A Marinês é a nossa querida e fraternal amiga. Tanto ela como o seu filho, o grande músico Marcos Farias. Rosil Cavalcanti trabalhou comigo na rádio Borborema. Tive o prazer de conhecê-lo e de merecer a sua amizade por muitos anos até a sua morte, em 1968. Biliu de Campina é o meu fraterno e irreverente amigo. Conheço-o há mais de quarenta anos. Pepysho Neto e Tan são amigos mais recentes, mas, nem por isso deixam de ser grandes amigos meus! Ambos cantores. O Pepysho gravou comigo o seu primeiro CD, e o Tan já gravou vários CDs que foram arranjados e gravados por mim. Jorge Ribas é um querido amigo. Arranjador. É um virtuose do violão e um estudioso da arte. Conheço o João Gonçalves desde longa data. É um grande compositor que nós temos. O Bráulio Tavares é um amigo das antigas! Desde os tempos dos Sebomatos, banda que se apresentava e tocava tal qual os Beatles aqui em Campina Grande, e da qual ele fazia parte nos anos 60. É um amigão! Tenho o prazer de conhecer a Elba Ramalho desde os tempos do Colégio Estadual da Prata, onde ela estudava e participava do conjunto musical feminino As Brasas, isto nos anos 60. Finalmente Zé Ramalho, ainda eu não tive a satisfação de conhecê-lo pessoalmente.

18) RM – Cite os músicos com quem você mais tem proximidade.

GC – Ah! Seria uma lista enorme! Por isso, não gostaria de citá-los para não cometer injustiças. Esta minha memória…!

19) RM – Fale de sua experiência como homem de estúdio.

GC – É uma experiência realmente gratificante. Aprimora-se muito o sentido da criação, da percepção, melhorando em muito a nossa prática musical.

20) RM – Fale da sua vivência com as festas juninas no seu início musical, e como vê-las hoje, como produtor cultural turístico.

GC – Sem nenhum saudosismo, ou, com todo saudosismo, não importa, festa de São João na minha meninice e adolescência tinha um cheiro de pureza no ar! Ao invés de ilhas de forró (Se referindo aos pequenos locais, tipo palhoças do interior ou coretos cobertos, que as pessoas dançam no Parque do Povo no Maior São João do Mundo em Campina Grande), havia um grande continente de alegria! Não entendo nada de turismo, mas, tenho muito medo do mercantilismo reinante hoje em tudo. Do: Vender para publícitar, que eu diria melhor: Vender para manietar. Acho que as festas de São João é como as de carnaval etc. Na sua essência, esmaecem na razão inversa das suas transformações em espetáculo, que enriquecem empresários e, quase sempre, empobrecem a cultura.

21) RM – Nos apresente Kátia Virgínia, sua esposa cantora.

GC – Kátia Virgínia Teles Cavalcanti, é, sem dúvida alguma, a mais bela voz desta região. Como eu sou suspeito para falar, diria apenas que, na minha já longa vida de músico, não encontrei ninguém que interpretasse tão bem e com tanto sentimento, os mais diferentes tipos de canções que lhes foram confiadas. Prova inequívoca disto, são as várias gravações que já fizemos juntos. Bem como o sucesso obtido com o lançamento do seu primeiro CD com músicas inéditas (Dever de Cantar), ocorridos em 2002. Ela, ainda adolescente, teve diversas participações na rádio e televisão local e regional,  tendo ido ao Rio de Janeiro, onde participou do programa Clube do Bolinha, do o apresentador Jair de Talmaturgo. E também, do Programa do Chacrinha, obtendo muito boa aceitação. A partir da segunda metade de 1969, ingressou no grupo musical Ogírio Cavalcanti, lá permanecendo por muitos anos, sempre com enorme sucesso. Casamo-nos em 1975. Estamos, então, até hoje, trilhando a mesma estrada, musical e conjugal. Álisson, Sheyla e Shirley, são nossos três filhos.

22) RM – Fale sobre os projetos para 2006 e futuros.

GC – Os planos para o futuro são os que nortearam a nossa vida até hoje. Isto é: Trabalho, trabalho e trabalho! Incluem-se neste verdadeiro mutirão a dois, a gravação de um próximo CD, e shows por este mundão de meu Deus. 

TCE lastima a perda de Gabimar Cavalcanti para a música e a cultura paraibana

O Tribunal de Contas da Paraíba, reunido na manhã desta quarta-feira (4), aprovou Voto de Pesar pela morte, domingo passado, em Campina Grande, do multi-instrumentista Gabimar Cavalcanti.

Autor da propositura, o conselheiro Fábio Nogueira lembrou, emocionado, passagens da vida de Gabimar, acentuando que a cegueira, aos três anos de idade, não lhe subtraiu o talento nem a capacidade para a execução de instrumentos diversos, embora tivesse no acordeon o de sua preferência.

Na Era de Ouro da Radiofonia Brasileira – observou o conselheiro – Gabimar ganhou projeção, no País, como ganhador do 1º Prêmio Esso Estandarte Brasil entregue pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Pediu ele que o sentimento de pesar da Corte de Contas fosse encaminhado a Kátia Virgínia, “com quem Dagmar dividia o palco e a vida”.

“Desfrutei da amizade e da sonoridade de Gabimar”, observou o presidente do Tribunal de Contas da Paraíba, conselheiro Arthur Cunha Lima que, em seguida, se perguntou: “Como ficará Kátia sem Gabi. Os dois se afinavam na música e na vida”.

Eis, na íntegra, o voto do conselheiro Fábio Nogueira:

Manifestação de Pesar pelo falecimento de Gabmar Cavalcanti Albuquerque

Na noite do último domingo, dia 1º de maio, Campina Grande perdeu um pouco da sua sonoridade, da sua musicalidade. Calaram-se os instrumentos de Gabmar Cavalcanti Albuquerque que, segundo noticiou-se na imprensa paraibana, faleceu em decorrência de um câncer. Era um autodidata da música que, há anos, encantava com a capacidade virtuosa de dedilhar teclados e cordas instrumentais, embora sempre assegurasse uma preferência pelo acordeom.

A deficiência visual de Gabmar Cavalcanti – ele perdeu a visão aos três anos de idade – não o impediu de ser um multi-instrumentista que, mesmo manifestando essa preferência pela sanfona, tocava cada instrumento com igual conhecimento e genialidade.

Prova dessa capacidade ímpar em lidar com a música ocorreu ainda na infância. Em 1954, Gabmar Cavalcanti venceu, em primeira audição, o Prêmio Esso Standard do Brasil. Isto lhe rendeu inúmeras e justas homenagens na Rádio Nacional do Rio de Janeiro que, na denominada era de ouro da radiofonia brasileira, foi o principal veículo de comunicação do Brasil.

Há vários anos, Gabmar Cavalcanti dividia a vida e o palco com a cantora Kátia Virginia, a quem dirijo os meus votos de profundo pesar, extensivos à família do artista e ao povo de Campina Grande, que compartilha da imensa tristeza pela morte desse expoente da música brasileira.

Conselheiro Fábio Túlio Filgueiras Nogueira


Gabmar

                           

ailton_elisiarioPor Ailton Elisiário*

O mundo musical de Campina Grande está de luto, com a partida de Gabmar Cavalcanti. Músico tecladista, pianista, guitarrista, arranjador, dentre outros mais qualificativos, Gabmar emudeceu os sons que produzia em seus instrumentos com tanta maestria. Não mais nos deleitaremos com sua música e seus arranjos musicais.

Desde minha adolescência que me encantava sua música. Os bailes daquela época, as matinês nos clubes da cidade, os programas de auditório da Rádio Borborema, até os assustados nas casas particulares, Gabmar punha todos a bailar, facilitando inclusive os namoros pelo ar de romantismo dos seus acordes. O conjunto musical de seu irmão Ogírio Cavalcanti foi por muitos anos o palco de suas apresentações.

Sua música era especial. Advinda da sensibilidade aguçada resultante da sua deficiência visual, o teclado que era o instrumento de sua predileção emitia uma sonoridade rica de profundo sentimento em todas as melodias que tocava, fazendo os ouvintes deslizar no “dancing” maravilhoso da harmonia das notas musicais.

Gabmar, porém, há muitos anos não encantava sozinho. Ao conhecer a cantora Katia Virgínia, com quem se casou e com ela teve filhos, as plateias aplaudiam o músico e a sua “crooner”. Era o casal que levava alegria e felicidade a todos que os ouviam. Era o casal de agenda sempre cheia, requisitado pelos amantes da boa música.

Nas minhas segundas núpcias, Kátia e Gabmar preencheram os espaços da igreja e do ambiente da recepção aos convidados. A versatilidade que ambos tinham com a música, fez com que no templo o teclado de Gabmar se transmudasse em órgão e a voz de Kátia em coro angelical, penetrando os corações em canto clássico e religioso, para depois no local festivo se redobrarem em canto profano, em música popular. Todos cantaram e dançaram ao som de Kátia e Gabmar.

Não mais haveremos de nos deliciar com eles dois. Não mais sentiremos a harmonia da voz de Kátia em sintonia com o teclado de Gabmar. Não mais o teclado de Gabmar vibrará. Gabmar se foi para tocar no céu, onde será maestro dirigindo uma orquestra, sonho que na terra não realizou.

Mas, e a voz melódica de Kátia, o que dela será? Continuará viva, suspirando por seu amor, em cantos românticos e de saudade? Ou silenciará pela perda do amado, como o poeta Júlio Salussese inspirou no soneto Cisnes: “que o cisne vivo, cheio de saudade, nunca mais cante, nem sozinho nade, nem nade nunca ao lado de outro cisne”? Quem sabe? Talvez o Dever de Cantar, CD por ela cantado, arranjado e gravado por Gabmar, fruto do eterno amor de ambos, algum dia dirá.

(*) Membro da ALCG